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Avaliação e Monitora
Entrevista com o Jornal A Tarde - Salvador - BA

(Foto: Alessandra Lori/Secopa)


O embaixador Iraniano em visita a Arena Fonte Nova, onde a seleção do seu país jogará dia 25 contra a Bósnia pela Copa do Mundo.

 

Por João Mauro Uchôa

 

Em entrevista exclusiva ao jornal A TARDE, o embaixador do Irã no Brasil foi econômico nos comentários sobre a crise na Crimeia e enfatizou que Israel - principal opositor do polêmico programa nuclear iraniano não terá coragem de atacar o seu país.

Mohammad Ali Ghanezadeh afirma que o Irã não precisa de armas nucleares e jamais desenvolverá este tipo de arsenal.

Ney Campello, secretário estadual da Copa, afirmou recentemente que a partida entre Irã e Bósnia, marcada para o dia 25 de julho em Salvador, terá esquema especial de segurança. Ele disse ainda que os torcedores iranianos e bósnios seriam acompanhados pela Interpol desde a saída de seus países de origem. O senhor vê razão para esse tratamento diferenciado?

Não tenho nenhuma informação sobre essas declarações.

Falamos sobre vários assuntos, inclusive sobre o perfil do torcedor que vem ver os jogos. São iranianos que virão do Irã, de países da Europa, dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.

Falamos também sobre como criar um esquema de atendimento consular para esses iranianos que estarão em Salvador durante a Copa.

Conversamos também sobre a possibilidade de realizar um evento cultural ou uma semana cultural durante esses jogos. Aquestão da segurança depende do governo federal.

Um esquema foi criado para isso, tanto para as delegações como para o torcedor. Todos os 32 países participantes (da Copa) podem ter representantes no centro de coordenação da Polícia Federal. Estamos prontos para ajudar o governo brasileiro.

Qual o balanço que o senhor faz da qualidade das relações entre Brasil e Irã?

As relações bilaterais entre Brasil e Irã possuem mais de 110 anos. Nunca existiu nenhum tipo de problema.

No ano passado, nossas relações comerciais atingiram US$1,6 bilhão. Há muitas potencialidades que poderão ser exploradas no futuro.

A minha visão para o futuro nas nossas relações é muito otimista.

A pretensão da Rússia de anexara Crimeia traz tensão a uma região próxima ao Irã. Como o senhor avalia a crise iniciada por Moscou?

Temos boas relações com a Rússia, que é nossa vizinha. No entanto, nunca fomos alinhados. Como potência regional, o Irã tem suas políticas de soberania.

Israel voltou a afirmar que mantém planos para atacar o Irã. Essa postura é motivada pelas dúvidas sobre o caráter pacífico do programa nuclear iraniano. Que garantias o Irã oferece às potências ocidentais de que não vai produzir armas nucleares?

Israel não terá coragem de atacar o Irã, pois sabe que terá resposta.

O programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. Não existe na doutrina militar iraniana nenhum objetivo para essas atividades.

Até mesmo pela convicção religiosa somos contra o desenvolvimento de armas nucleares.

O decreto religioso do nosso líder supremo diz que fabricação, armazenamento e uso de armamentos nucleares é proibido.

Por ter o caráter de potência regional, o Irã não precisa de arma nuclear. Como membro do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), o Irã abriu suas portas para os inspetores da Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA).

Nossa ideia com isso foi demonstrar total transparência das nossas atividades. É com este sentimento que também estamos desenvolvendo conversações com os países ocidentais.

Um canal de TV brasileiro exibiu recentemente reportagem destacando o aumento da participação feminina como força de trabalho altamente qualificada no Irã. Esse fenômeno é indicativo de que a sociedade iraniana está se tornando mais liberal e ocidentalizada?

A imprensa internacional, em geral, constrói uma imagem negativa da sociedade iraniana. Esta imagem não está de acordo com a realidade. Atualmente, 63% da população estudantil das universidades iranianas é formada por mulheres. Existem muitas mulheres que são autoridades dentro do governo iraniano.

Em qualquer parte da sociedade elas podem estar presentes e exercer atividades. Essa presença feminina é também uma demonstração de certos valores considerados pela religião (islâmica).

"Na última eleição, o povo iraniano elegeu um presidente com uma mentalidade diferente de Mahmoud Ahmadinejad. Isso mostra que há dinamismo na nossa sociedade"

Acreditamos que a base da família é a mulher. As mulheres sempre exerceram qualquer tipo de atividade em nossa sociedade.

Tudo isso demonstra, de certa forma, um dinamismo que nossa sociedade possui, sociedade essa que valoriza a mulher por aspectos diferentes da sociedade ocidental.

As revoluções que recentemente sacudiram países como Egito, Tunísia, Síria e Líbia são motivadas em parte pelo desejo dos jovens de mais liberdade e participação nas decisões governamentais. Como o Irã está lidando com isso?

Não chamamos de primavera árabe, mas de despertar islâmico todos esses movimentos que atingiram países próximos ao Irã. Cada um tem suas características, mas todos são contra regimes ditatoriais.

Esses movimentos também têm como característica o combate à corrupção.

Em alguns destes países, 80%do orçamento público estava nas mãos de 5% da população. Esses movimentos também possuem características religiosas, islâmicas.

Por outro lado, temos no Irã um estado democrático, um sistema eleitoral onde o presidente é eleito com o voto direto do povo. Depois da Revolução Islâmica (1979), realizamos 30 eleições diferentes.

Na última eleição, o povo iraniano elegeu um presidente comum a mentalidade diferente de Mahmoud Ahmadinejad (governou o Irã de 2005 a 2013). Isso mostra que há dinamismo na nossa sociedade.

Por isso, as condições do nosso país são totalmente diferentes daquelas que existem em outros países da região.

O Irã é aliado do regime sírio do presidente Bashar Assad. Qual o prognóstico que o senhor faz da crise na Síria, onde a guerra civil acaba de completar três anos?

O conflito na Síria é resultado de uma intervenção inadequada dos países do ocidente. O resultado é a presença de tantos grupos terroristas.

Não somos contra reformas na Síria. No entanto, acreditamos que qualquer reforma deve ser baseada na vontade do povo.

É o povo que tem que decidir. Já passou a era em que países podem decidir o futuro de outros países.

O senhor destacou que escolher o presidente pelo voto é uma conquista do povo iraniano. Mas é possível falar em reformas propostas pelo povo quando o que existe na Síria - pelo menos para a maioria dos países ocidentais - é um regime totalitário?

Este é o problema do ocidente. Qualquer resultado de uma eleição que não esteja de acordo com ideais ocidentais não é aceito. Sabemos que o Hamas foi eleito em Gaza pelo voto do povo, mas isso não foi reconhecido pelo ocidente.

Por outro lado, existem países onde o regime foi substituído por meio de golpe de estado e foi de pronto reconhecido pelo ocidente.

Apoiaremos na Síria qualquer regime que seja apoiado pela do povo.

Fonte: Jornal A Tarde, Salvador, 21 de Marco de 2014

 

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